segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

1 - Sobrados e Mucambos


Título: Sobrados e Mucambos
Autor: Gilberto Freyre
Intérpretes do Brasil vol 2, pp. 729-1464. Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 2000.
Lido entre 31/12/2014 e 16/01/2015.

Comentários: Continuação do primeiro livro do autor, Casa Grande e Senzala, este volume trata em primeiro lugar da urbanização do sistema patriarcal brasileiro, um fenômeno que ocorreu em seus estágios mais importantes no século compreendido entre 1750-1850. Esse período marca, segundo o autor, uma importante virada na sociedade brasileira, pelo fato de que o sistema de valores originais do patriarcado, que foi visto no volume anterior, se transmuta de um sistema rural, onde o senhor era uma espécie de “senhor feudal” absoluto para o meio urbano, inserindo-se em um meio urbano com uma dinâmica social diferente.
Um tema importante do livro são as mudanças ideológicas causadas por essa transformação social. O autor marca uma progressiva viragem ocidental da vida brasileira, de uma sociedade praticamente “virgem” de influências europeias extra-ibéricas e muito marcada por diversas influências indígenas, africanas, mouras e asiáticas, passa a uma sociedade fortemente europeizada. Isso ocorre em praticamente todos os aspectos da sociedade, da culinária às artes decorativas e ao vestuário; mas aquele ambiente que o autor mais destaca, dando inclusive nome ao livro, é a arquitetura senhorial. O brasileiro de alta classe deixa de habitar a casa-grande rural, com sua arquitetura adaptada ao ambiente tropical, para viver muitas vezes em uma casa de modelo arquitetônico europeu – mormente francês – e muitas vezes insalubre.
O autor marca também outras mudanças ocorridas no período que são correlatas e também estimulam essa transformação da sociedade. Um tema importante é o surgimento do mercado capitalista global, no crescimento da industrialização europeia, e a maneira com que sobretudo o Reino Unido e a França se introduzem no nosso mercado – modificando diversos aspectos da nossa sociedade, em alguns pontos negativamente, mas também positivamente em outros. Essa influência comercial apoia e é reforçada pela influência cultural que a cultura desses dois países exercem sobre o nosso país.
Por fim, o autor narra vários processos que dão início à desintegração do sistema patriarcal brasileiro e elas são contadas sobretudo nos dois últimos capítulos do livro. O primeiro é a ascensão da máquina que, de início em conflito com a mão de obra escrava, vai paulatinamente eclipsando e termina por torná-la obsoleta. Por consequência, o domínio sócio-racial e a formação de uma ampla unidade familiar entre senhores escravo, que o autor vê como marca essencial do sistema brasileiro, vai pouco a pouco sendo substituído por outras maneiras de organização social.
Uma segunda mudança social que marca o fim do período histórico relatado no livro é a ascensão do bacharel na sociedade brasileira. De início criada fora do território nacional, sobretudo em Coimbra, e ao longo do século XIX focada nas duas grandes faculdades de direito, em São Paulo e Olinda, e de medicina, no Rio de Janeiro e em Salvador, a formação superior no Brasil se solidifica na primeira metade do século XIX, processo que autor vê como desencadeando uma sapa no sistema patriarcal brasileiro por introduzir novas autoridades superpostas às do senhor, sobretudo de caráter intelectual. O autor mostra, de maneira convincente, como esse bacharel toma conta da administração imperial sobretudo a partir do segundo reinado. Além disso, frequentemente esse bacharel é mulato, filho ilegítimo do senhor, e sua ascensão também confunde a hierarquia racial brasileira. É importante ressaltar, contudo, que esses são apenas os primeiros passos da desintegração do sistema patriarcal, que vai ganhar momento no século seguinte e é o assunto do terceiro livro Ordem e Progresso.

O livro é um excelente exemplo de ensaio histórico e suas qualidades literárias são bem conhecidas de todos. Na minha opinião ele se equipara, quando não ultrapassa o livro anterior, que lhe é muito mais famoso. A pesquisa, como livro anterior, é extremamente minuciosa, o autor se refere continuamente a viagens de campo por regiões como o Vale do Paraíba, a região das Minas,  e, claro, o seu Pernambuco natal – e isso marca uma diferença em relação ao livro anterior onde há pouca informação de primeira mão. As fontes literárias são copiosas, constituídas principalmente por romances e relatos de viagem, e predominam informações sobre a sociedade da época tiradas de jornais contemporâneos. No entanto, como todo livro do autor, torna-se necessário fazer uma detida análise das afirmações que o autor faz. Isso não se dá pela pesquisa, que, como foi dito, é muito minuciosa, mas pelo gosto do autores de fazer vastas generalizações históricas e sua talvez excessiva esquematização. No geral, contudo, é uma das grandes reflexões sobre um aspecto importantíssimo da nossa história e da nossa formação. O livro é indispensável e um acompanhante fiel do volume anterior.

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