Título: Sobrados e Mucambos
Autor: Gilberto Freyre
Intérpretes do Brasil vol 2, pp. 729-1464. Rio de Janeiro,
Nova Aguilar, 2000.
Lido entre 31/12/2014 e 16/01/2015.
Comentários: Continuação do primeiro livro do autor, Casa Grande e Senzala, este volume trata em primeiro lugar da
urbanização do sistema patriarcal brasileiro, um fenômeno que ocorreu em seus
estágios mais importantes no século compreendido entre 1750-1850. Esse período
marca, segundo o autor, uma importante virada na sociedade brasileira, pelo
fato de que o sistema de valores originais do patriarcado, que foi visto no
volume anterior, se transmuta de um sistema rural, onde o senhor era uma
espécie de “senhor feudal” absoluto para o meio urbano, inserindo-se em um meio
urbano com uma dinâmica social diferente.
Um tema importante do livro são
as mudanças ideológicas causadas por essa transformação social. O autor marca
uma progressiva viragem ocidental da vida brasileira, de uma sociedade
praticamente “virgem” de influências europeias extra-ibéricas e muito marcada
por diversas influências indígenas, africanas, mouras e asiáticas, passa a uma
sociedade fortemente europeizada. Isso ocorre em praticamente todos os aspectos
da sociedade, da culinária às artes decorativas e ao vestuário; mas aquele
ambiente que o autor mais destaca, dando inclusive nome ao livro, é a
arquitetura senhorial. O brasileiro de alta classe deixa de habitar a
casa-grande rural, com sua arquitetura adaptada ao ambiente tropical, para
viver muitas vezes em uma casa de modelo arquitetônico europeu – mormente
francês – e muitas vezes insalubre.
O autor marca também outras
mudanças ocorridas no período que são correlatas e também estimulam essa
transformação da sociedade. Um tema importante é o surgimento do mercado
capitalista global, no crescimento da industrialização europeia, e a maneira
com que sobretudo o Reino Unido e a França se introduzem no nosso mercado –
modificando diversos aspectos da nossa sociedade, em alguns pontos
negativamente, mas também positivamente em outros. Essa influência comercial
apoia e é reforçada pela influência cultural que a cultura desses dois países
exercem sobre o nosso país.
Por fim, o autor narra vários
processos que dão início à desintegração do sistema patriarcal brasileiro e
elas são contadas sobretudo nos dois últimos capítulos do livro. O primeiro é a
ascensão da máquina que, de início em conflito com a mão de obra escrava, vai
paulatinamente eclipsando e termina por torná-la obsoleta. Por consequência, o domínio
sócio-racial e a formação de uma ampla unidade familiar entre senhores escravo,
que o autor vê como marca essencial do sistema brasileiro, vai pouco a pouco
sendo substituído por outras maneiras de organização social.
Uma segunda mudança social que
marca o fim do período histórico relatado no livro é a ascensão do bacharel na
sociedade brasileira. De início criada fora do território nacional, sobretudo
em Coimbra, e ao longo do século XIX focada nas duas grandes faculdades de
direito, em São Paulo e Olinda, e de medicina, no Rio de Janeiro e em Salvador,
a formação superior no Brasil se solidifica na primeira metade do século XIX,
processo que autor vê como desencadeando uma sapa no sistema patriarcal
brasileiro por introduzir novas autoridades superpostas às do senhor, sobretudo
de caráter intelectual. O autor mostra, de maneira convincente, como esse
bacharel toma conta da administração imperial sobretudo a partir do segundo
reinado. Além disso, frequentemente esse bacharel é mulato, filho ilegítimo do
senhor, e sua ascensão também confunde a hierarquia racial brasileira. É
importante ressaltar, contudo, que esses são apenas os primeiros passos da
desintegração do sistema patriarcal, que vai ganhar momento no século seguinte
e é o assunto do terceiro livro Ordem e
Progresso.
O livro é um excelente exemplo de
ensaio histórico e suas qualidades literárias são bem conhecidas de todos. Na
minha opinião ele se equipara, quando não ultrapassa o livro anterior, que lhe
é muito mais famoso. A pesquisa, como livro anterior, é extremamente minuciosa,
o autor se refere continuamente a viagens de campo por regiões como o Vale do
Paraíba, a região das Minas, e, claro, o
seu Pernambuco natal – e isso marca uma diferença em relação ao livro anterior
onde há pouca informação de primeira mão. As fontes literárias são copiosas,
constituídas principalmente por romances e relatos de viagem, e predominam
informações sobre a sociedade da época tiradas de jornais contemporâneos. No
entanto, como todo livro do autor, torna-se necessário fazer uma detida análise
das afirmações que o autor faz. Isso não se dá pela pesquisa, que, como foi
dito, é muito minuciosa, mas pelo gosto do autores de fazer vastas
generalizações históricas e sua talvez excessiva esquematização. No geral, contudo,
é uma das grandes reflexões sobre um aspecto importantíssimo da nossa história
e da nossa formação. O livro é indispensável e um acompanhante fiel do volume
anterior.

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